sábado, 7 de agosto de 2010

Terceiro Texto do PIESF


Terceiro Texto
A representação social do cuidado no programa saúde da família na cidade de Natal
Social representation related to care in the family health program in Natal-Brazil
Maísa Paulino RodriguesI; Kenio Costa de LimaII; Angelo Giuseppe RoncalliII
IDepartamento de Ciências Biomédicas, Faculdade de Ciências da Saúde, UERN. Rua Atirador Manoel da Silva Neto S/N, Aeroporto. 59607-360 Mossoró RN. maisapaulino@digi.com.br
IIDepartamento de Odontologia, Universidade Federal do Rio Grande do Norte 

RESUMO
Este estudo buscou apreender os elementos representacionais centrais e periféricos do cuidado em saúde construídos pelas equipes do Programa Saúde da Família (PSF) em Natal (RN). Nessa perspectiva, fez-se uso da teoria das representações sociais e da teoria do núcleo central. A amostra constituiu-se de noventa profissionais do PSF e para a coleta do material foram utilizados a associação livre de palavras, o questionário e a técnica de grupo focal. O núcleo central da representação é composto por atenção/amor e acolhimento, revelando diferentes entendimentos e mostrando também que o conhecimento construído está amparado por uma visão aproximada do cuidado, embora valores tradicionais e conotações banalizadas sejam mantidos, dificultando a implementação de intervenções mais efetivas do cuidado no PSF. A composição do núcleo central indica que qualquer capacitação que pretenda modificar atitudes – portanto, a ação cotidiana desses profissionais - deve priorizar o debate sobre a ressignificação dos elementos atenção/amor e acolhimento e considerar o conjunto de elaborações mentais, emoções, práticas e explicações oriundas do cotidiano que se introduzem na constituição da representação social em foco, influenciando as escolhas e estratégias utilizadas pelos profissionais na produção do cuidado.
Palavras-chave: Cuidado em saúde, Representações sociais, Programa Saúde da Família.

ABSTRACT
This study examines the core and outlying representational elements of healthcare constructed by Family Healthcare Program teams in Natal, Brazil, using the theory of social representations and the central core theory. The sample consisted of ninety healthcare practitioners working with this Program, with data collected through free word association, a questionnaire and focus groups. The core representation consists of attention/love and comfort, disclosing different understandings and showing that accumulated knowledge is supported by a view that is close to care-giving. However, traditional values and trivial connotations are maintained, hindering the implementation of more effective interventions in by this Program. The core composition indicated that any capacity-building efforts that try to modify attitudes - and thus the daily practice of these practitioners – must assign high priority to discussions on redefining these elements of attention/love and comfort. They must consider the set of mental, emotional, and practical elaborations as well as explanations arising from daily life that are introduced into the constitution of the social representations under examination, influencing choices and shaping the strategies used by practitioners to provide care.
Key words: Healthcare, Social representations, Family Health Program.

Introdução
Nos dias atuais, é comum convivermos com uma gama de problemas que alteram intensamente a capacidade dos serviços de saúde de responderem de forma eficaz às demandas por saúde na vida individual e na vida coletiva dos cidadãos brasileiros, o que pode ser detectado por meio da pouca efetividade das ações de promoção, proteção e recuperação da saúde.
Essa situação tem sido observada cotidianamente nas instituições de saúde do Brasil, sendo revelada por meio da insatisfação e da insegurança dos usuários com o tipo de atendimento prestado e da forma como os profissionais de saúde operam os serviços, ou seja, desenvolvendo práticas histórico-socialmente determinadas pela ação médico-hegemônica.
Nesse horizonte de crise, o Programa Saúde da Família (PSF) pode significar um processo instituinte de mudanças na atenção à saúde, resgatando conceitos fundamentais de vínculo, humanização, co-responsabilidade e outros, que apontam para a reorientação do modo de operar os serviços de saúde.
De acordo com o Ministério da Saúde1, o objetivo do Programa Saúde da Família é o de contribuir para a reorientação do modelo assistencial a partir da atenção básica, em conformidade com os princípios do Sistema Único de Saúde, imprimindo uma nova dinâmica de atuação nas unidades básicas de saúde, com definição de responsabilidades entre os serviços de saúde e a população.
O PSF é considerado uma estratégia que prioriza as ações de promoção, proteção e recuperação da saúde dos indivíduos e da família, do recém-nascido ao idoso, sadios ou doentes, de forma integral e contínua. Apresenta-se, assim, como uma possibilidade de reestruturação dos serviços e de novas práticas de intervenção na atenção à saúde.
Nessa perspectiva, visa à reorganização da atenção básica em novas bases e critérios, em substituição ao modelo tradicional de assistência, centrado no hospital e orientado para a cura de doenças. O foco de atenção está centrado na família, entendida e percebida a partir do seu ambiente físico e social, o que possibilita às equipes de saúde uma compreensão ampliada do processo saúde-doença e da necessidade de intervenções que vão além de práticas curativas.
Em sua retórica, o Programa Saúde da Família conclama para a construção de uma nova maneira de operar a saúde, isto é, aponta para a produção do cuidado com vistas à implantação de um desenho de saúde humanizado, o que requer considerar a singularidade e a subjetividade de cada sujeito no processo diagnóstico-terapêutico, incluindo as dimensões subjetivas e sociais envolvidas no adoecimento. Nessa perspectiva, a comunicação se constitui em importante instrumento para humanizar o cuidado em saúde no PSF.
Apesar da grande polêmica gerada no campo da Saúde Coletiva, por ocasião da implantação do Programa Saúde da Família no Brasil, observa-se que cotidianamente essa estratégia vem se afirmando como um processo capaz de contribuir para a mudança do modelo assistencial no Sistema Único de Saúde (SUS). Em 2005, 44,4% da população brasileira eram cobertos pelo Programa, isto é, cerca de 78,6 milhões de pessoas atendidas pelo PSF2. A potencialidade para a mudança advém do conteúdo estratégico, que permite um rompimento com o comportamento passivo dentro das unidades básicas de saúde, com extensão das ações para e com a comunidade, possibilitando o desenvolvimento do trabalho em equipe, a responsabilização sobre um território, os vínculos de compromisso e de co-responsabilidade entre serviços de saúde, profissionais e população.
A partir desse referencial, buscamos estabelecer um olhar mais atento sobre o processo de trabalho em saúde e os desafios necessários para a construção de um novo fazer no PSF.

O trabalho em saúde e a produção do cuidado
O cuidado deve ser sentido, vivido e, para que isso ocorra, é necessário que ele seja absorvido e faça parte da vida dos profissionais de saúde. O cuidado humano é baseado no respeito à dignidade, na sensibilidade e na ajuda. Dessa maneira, o cuidado humano deveria constituir-se num imperativo moral, da atitude ética, em que seres humanos percebem e reconhecem os direitos uns dos outros. Nesse cuidado existe um compromisso, uma responsabilidade em estar no mundo, ajudando a construir uma sociedade com base em princípios morais3.
A compreensão de cuidado aqui proposta comunga com a concepção apresentada por Ayres4, ou seja, é uma compreensão ampliada, que não se refere ao conjunto de recursos e medidas terapêuticas, tampouco aos procedimentos auxiliares que possibilitam efetivar a aplicação de uma terapêutica, mas o cuidado entendido como um constructo filosófico, com o qual queremos designar, simultaneamente, uma compreensão filosófica e uma atitude prática frente ao sentido que as ações de saúde adquirem nas diversas situações em que se reclama uma ação terapêutica, ou seja, uma interação entre dois ou mais sujeitos objetivando o alívio de um sofrimento ou a aquisição de um bem-estar, sempre mediada por saberes especificamente direcionados a essa finalidade.
O modelo de atenção hegemônico, vigente, centrado na concepção médico-curativa, tem por finalidade a produção da cura, orientada pela fragmentação dos procedimentos, a tecnificação da assistência e a mecanização dos atos. Já um modelo assistencial produtor de saúde deve tomar por base a produção do cuidado, com ênfase no trabalho em equipe, na humanização da assistência e na ética da responsabilidade: O grande desafio para o ser humano é combinar trabalho com cuidado. Eles não se opõem, mas se compõem. Limitam-se mutuamente e ao mesmo tempo se complementam. Juntos constituem a integralidade da experiência humana, por um lado, ligada à materialidade e, por outro, à espiritualidade. O equívoco consiste em opor uma dimensão à outra e não vê-las como modos-de-ser do único e mesmo ser humano5.
A produção de serviços de saúde pode ser entendida dentro da categoria "serviço", expressando a necessidade de cumprir uma finalidade útil; entretanto, os resultados do trabalho não se constituem em mercadorias passíveis de comercialização, como produtos mercantis em si mesmos, mas são serviços produzidos pelo encontro entre quem produz e quem recebe, ou seja, a sua produção é singular e se dá no próprio ato6.
Dessa forma, o profissional de saúde, durante o exercício de sua atividade, precisa manter uma relação "humanizada" com seus pacientes. André Levy7 nos diz que a abordagem clínica – a palavra "clínica", em sua raiz primitiva, significa "ao pé do leito" – supõe sujeitos às voltas com um sofrimento, uma crise que os toca por inteiro. O clínico depara-se com um ser pensante e igualmente desejante, assim como ele próprio o é. Nesse encontro entre dois sujeitos, as emoções fluem entre ambos, criando uma relação autêntica entre dois seres, e não entre um técnico e uma patologia.
Uma prática de saúde humanizada não é o desenvolvimento de uma técnica ou artifício, mas um processo vivencial que deve permear toda a atividade dos profissionais, procurando realizar e oferecer um tratamento que os usuários merecem como pessoas humanas, dentro das circunstâncias peculiares aos serviços de saúde.
Ao considerarmos a complexidade dos fatores envolvidos no adoecimento, verificamos que a atuação dos profissionais não pode restringir-se apenas aos aspectos biomédicos, mas faz-se necessário ampliá-los. Campos8 utiliza o conceito de "clínica ampliada" para definir a clínica necessária nos serviços de saúde, ou seja, uma clínica que inclua, além da doença, a pessoa e seu contexto, e se responsabilize tanto pela cura e a reabilitação quanto pela prevenção e a proteção individual e coletiva. Uma clínica que consiga compreender de forma ampliada o processo de adoecimento e sofrimento do usuário e elaborar projetos terapêuticos singulares com ações que visem intervir nas diversas dimensões relacionadas ao sofrimento e ao adoecimento. Enfim, uma clínica comprometida com o cuidado com a produção de saúde e de vida.
Esses projetos terapêuticos devem direcionar-se também para a construção da autonomia do usuário, contribuindo para aumentar a sua capacidade de enfrentamento dos problemas de saúde a partir de suas condições concretas de vida, o que os tornará capazes de instituir novos modos de vida e protagonizar a produção da saúde. Isso significa possibilitar o conhecimento sobre o processo saúde-doença-restabelecimento, dialogar com os saberes, os desejos e valores do usuário na construção dos cuidados à saúde8 .
O modo de operar os serviços na atenção básica
O modo de operar os serviços de saúde é definido como um processo de produção do cuidado. É um serviço peculiar, fundado numa intensa relação interpessoal, dependente do estabelecimento de vínculo entre os envolvidos para a eficácia do ato. Por ser de natureza dialógica e dependente, constitui-se também em um processo pedagógico de ensino-aprendizagem9.
Diferentemente do que se propaga no discurso médico hegemônico, a atenção básica em saúde não é uma ação simplificada. Quando assumida de forma integral e resolutiva, ela exige dos profissionais que nela atuam um arsenal de atributos e recursos tecnológicos bastante diversificados e complexos.
Merhy10 destaca que um profissional de saúde, no desempenho de uma ação, mobiliza concomitantemente seus saberes e modos de agir. Esse modo de agir é definido inicialmente pela existência de um saber específico sobre o problema que o profissional vai enfrentar, acerca do qual se coloca em jogo um saber territorializado no seu campo profissional de ação, mas ambos envolvidos por um território que marca a dimensão cuidadora. Portanto, todos os trabalhadores em saúde possuem potenciais de intervenção nos processos de produção em saúde. Esses potenciais são marcados pela relação entre os núcleos de competência profissional e o núcleo cuidador, quer seja esse trabalhador um médico ou um arquivista.
No modelo médico-hegemônico, o núcleo cuidador ocupa um papel irrelevante e complementar em relação ao núcleo profissional, que se encontra fragmentado, constituindo-se em seara de disputa pelo poder. A implicação mais séria desse modelo é o enfraquecimento da dimensão cuidadora do trabalho em saúde, em particular do próprio médico. Um outro problema existente é a submissão dos outros profissionais da equipe à lógica dominante da ação médica. Tal lógica empobrece consideravelmente o núcleo cuidador. Alguns autores advogam que a baixa incorporação do saber clínico no ato médico compromete seriamente a eficácia da intervenção; inversamente, podemos dizer que a morte da ação cuidadora dos diversos profissionais de saúde tem construído modelos de atenção pouco resolutivos perante as necessidades de saúde dos cidadãos.
Essa compreensão implica reconhecer que a construção de um novo modelo de saúde, humanizado, pressupõe a ampliação da dimensão cuidadora, no sentido de desencadear processos melhor partilhados dentro da equipe de saúde e também entre os profissionais e usuários, para que se garanta o vínculo e a co-responsabilização. Isso implica também uma melhor combinação entre a capacidade de produzir procedimentos e cuidado, requerendo competências diversificadas, por parte dos profissionais atuantes, que se expressam no campo da cooperação (núcleo cuidador), pelo conhecimento ético, a destreza nas relações interpessoais, o conhecimento institucional e a compreensão do processo de trabalho; no campo da direcionalidade técnica (núcleo profissional/específico), pelo conhecimento técnico-científico, o da clínica, o do planejamento e, ainda, o conhecimento sobre gerência e supervisão dos serviços6.
Dessa maneira, a tecnologia só adquire sentido como expressão conjunta das determinações internas dos processos de trabalho e, portanto, contemporânea destes. Não há tecnologia, nessa perspectiva, fora dos processos de trabalho. Há saberes, conhecimento de estatuto científico ou cultural que podem, em tese, transformar-se em momentos dos processos de trabalho à medida que possam corresponder aos requerimentos técnicos e sociais de tais processos11.
A produção do cuidado em saúde pressupõe que, no momento do encontro entre usuário e profissional, este consiga captar as necessidades singulares de saúde do usuário, tornando-se imprescindível uma abertura por parte do profissional para inclinar-se à escuta qualificada. Implica acolher o outro, oferecer espaço para a fala e para o diálogo, o estabelecimento de vínculo e de laços de confiança; portanto, uma maior capacidade diagnóstica e de efetividade da intervenção terapêutica12.
Os problemas de saúde são sempre complexos, porque envolvem diversas dimensões da vida, desde as que se circunscrevem no corpo até as de caráter social e subjetivo. Portanto, o trabalho em saúde, para ser eficaz, deve responder a essa complexidade e dar sentido à intervenção nos variados campos da saúde. Abre-se aqui uma gama de possibilidades de uso de inúmeras tecnologias de trabalho para a produção do cuidado.
Faz-se necessário, portanto, resgatar e incorporar assistências progressivas totalizadoras do cuidado produzido, em vez da somatória dos atos especializados; incluir a dimensão subjetiva nas práticas em saúde como parte da inovação tecnológica, revalorizando, tanto para os usuários quanto para os profissionais de saúde, uma prática cujas relações interpessoais resguardem o sentido humano das profissões de saúde. Isso equivale a se contrapor à visão predominante de uma cisão necessária entre o que é técnico-científico e o que é humano nas ações técnicas, quer pelo conhecimento dos limites da primeira dimensão, quer pelo conhecimento dos espaços efetivos da segunda, no interior das intervenções e da produção dos serviços13.
Nessa perspectiva, este estudo teve por objetivo identificar as representações sociais do cuidado subjacentes ao processo de trabalho em saúde no contexto da atenção básica na cidade do Natal (RN), no sentido de apreender os diversos produtos mentais e culturais estruturados, com componentes cognitivo, afetivo, avaliativo e simbólico (entre outros), construídos no cotidiano das relações pessoais, que norteiam o comportamento e as atitudes dos sujeitos e dos grupos sociais em que se inscrevem, de forma compartilhada14,15.
Perspectiva metodológica
O objeto das representações sociais está incluído num contexto ativo e dinâmico, sendo concebido pelo sujeito ou pela coletividade como prolongamento do seu comportamento. Dessa maneira, a representação social é uma "preparação para a ação", que remodela e recompõe os elementos do meio ambiente, estabelecendo um sentido para a ação15. Visando complementar a teoria das representações sociais, a teoria do núcleo central, desenvolvida por Abric16 em 1976, estabelece que as representações sociais se organizam em torno de um núcleo estruturante composto por um ou mais elementos, que dão significado à representação. Assim, o núcleo central também é denominado núcleo estruturante, possuindo duas funções fundamentais:
a. uma função geradora: elemento através do qual se cria, ou se transforma, o significado dos outros elementos característicos da representação. É por meio deste que os outros elementos adquirem sentido e valor;
b. uma função organizadora: núcleo central, que define a natureza dos elos, ligando entre si os elementos da representação. Portanto, o núcleo é o elemento unificador e estabilizador da representação.
Pode-se dizer que o núcleo central é o elemento mais estável da representação, aquele que consegue manter sua continuidade em contextos variáveis e evolutivos. Na representação, ele é o elemento mais resistente à mudança. Por essa razão, qualquer modificação do núcleo central vai determinar na modificação completa da representação. De acordo com a teoria, é a partir da identificação do núcleo central que se torna possível o estudo comparativo das representações. Para que duas representações sejam diferentes, elas devem estar organizadas em torno de dois núcleos centrais diferentes. Somente a identificação do conteúdo de uma representação não é suficiente para o seu reconhecimento e especificação. A organização desse conteúdo, por conseguinte, é essencial: duas representações definidas por um mesmo conteúdo podem apresentar-se radicalmente distintas, caso a organização dele - portanto a centralidade de certos elementos - seja diferente16.
Complementando o núcleo central, existe um sistema periférico constituído pelos elementos não-centrais da representação, isto é, elementos que não se incluem no núcleo central. Os elementos periféricos são responsáveis pela interface entre a realidade e o sistema central, posto que atualizam e contextualizam as determinações normativas e outras formas consensuais do núcleo central. É essa interface que permite a mobilidade, a flexibilidade e a expressão individualizada que, igualmente, como afirma Sá, caracterizam as representações sociais17.
O estudo da representação social deve sempre buscar apreender a complexidade do objeto em questão. Nesse sentido, visando apreender as diversas dimensões do objeto, adotamos uma abordagem plurimetodológica, usando, para isso, técnicas e estratégias metodológicas diversificadas. Dessa forma, a metodologia adotada procurou explorar aspectos quantitativos e qualitativos, com vistas a captar, através dos discursos produzidos, as representações sociais de diferentes sujeitos implicados com o processo do cuidado no PSF. Assim, ela procurou colocar em evidência os elementos representacionais centrais e periféricos das representações sociais em questão.
O campo de investigação foram as unidades de saúde do SUS situadas nos distritos sanitários Norte e Oeste - únicos distritos que haviam implantado o PSF há pelo menos um ano. Dessa forma, todas as unidades de Saúde da Família (USF) foram incluídas, isto é, dezoito unidades, contemplando-se uma equipe por USF (médico, enfermeiro, dentista, auxiliar de enfermagem e auxiliar de consultório dentário).
O foco de observação foi dirigido para noventa profissionais que compõem as equipes, e o critério de inclusão dos sujeitos foi sorteio entre as equipes lotadas em cada USF. A amostra foi composta por dezoito profissionais de cada categoria.
Para a coleta do material, utilizamos a combinação de três instrumentos, quais sejam: um questionário, a técnica de associação livre de idéias e de palavras e a entrevista em profundidade (técnica de grupo focal).
Inicialmente, aplicamos o questionário, composto por duas partes. A primeira foi destinada à coleta referente aos dados pessoais, tais como: idade, sexo e tempo de trabalho no serviço público e no PSF, enquanto a segunda, destinada à associação livre de palavras, objetivou captar os elementos representacionais centrais e periféricos sobre o "cuidado no PSF". A partir da frase indutora "Escreva rapidamente as palavras que, na sua opinião, associam-se ao cuidado", foram anotadas seis palavras que vinham à cabeça dos profissionais e, em seguida, numeradas por ordem de importância.
A partir das evocações obtidas com a técnica de associação livre de palavras, foi possível seguir a análise sugerida pelo autor16, ou seja, a investigação do conteúdo representacional, a estrutura e a organização desse conteúdo e a determinação e controle do núcleo central. Para a obtenção dos núcleos central e periférico, utilizamos o software Evoc 2000.
No segundo momento, lançamos mão da entrevista em profundidade do tipo estruturada, favorecendo a interlocução e a interação entre os sujeitos de forma espontânea, o que contribuiu para o enriquecimento das entrevistas. Essa técnica estruturante18 foi executada no período de setembro a dezembro de 2004 junto aos grupos amostrais (seis grupos com cinco componentes cada um), perfazendo um total de trinta sujeitos. Esses sujeitos foram selecionados do universo dos respondentes do questionário e o critério de inclusão foi o desejo e a disponibilidade de participar do grupo focal, mantendo-se, entretanto, a heterogeneidade do grupo (contemplando-se as cinco categorias profissionais).
Para as entrevistas com os grupos focais, utilizamos o seguinte roteiro de perguntas: "O que vem a sua cabeça quando eu falo a palavra cuidado?"; "De que maneira os pacientes estão sendo cuidados no PSF?"; "Qual a proposta de vocês para que se possa exercer efetivamente o cuidado no PSF?"
Para a análise das variáveis sociodemográficas e das entrevistas, trabalhamos com o tratamento estatístico descritivo e a análise de conteúdo categorial19. Em seguida, foi possível a construção de campos semânticos, que ratificaram as conclusões obtidas com a determinação e o controle do núcleo central. Todavia, dado o caráter mais livre e fluido das entrevistas, pudemos identificar outros elementos variantes e invariantes que compõem a representação em estudo.
As representações sociais são entendidas como teorias compartilhadas pelo grupo que serve de referência – nesse caso, as equipes de saúde do PSF. Dessa maneira, buscamos compreender a construção compartilhada que forma o senso comum desse grupo.
Cabe aqui ressaltar que este estudo foi analisado e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, de acordo com o parecer n. 116/03, sendo garantido total sigilo em relação aos nomes dos trabalhadores envolvidos na pesquisa.
Apresentação e discussão dos resultados
Como já dissemos anteriormente, de acordo com Abric16, toda representação social é organizada em torno de um núcleo central – que unifica e dá sentido ao seu conteúdo – e de alguns elementos periféricos, responsáveis pela interface entre a realidade e o sistema central da representação. Partimos, pois, aqui, da teoria do Núcleo Central e das orientações metodológicas sugeridas pelo autor16, a fim de compreendermos a organização interna da representação social do cuidado.
As associações que emergiram quando utilizamos a frase indutora "Escreva, rapidamente, as palavras que na sua opinião associam-se ao cuidado", totalizaram 540 evocações. A análise dessas evocações, feita por meio da observação da freqüência simples de cada uma delas, revelou 134 palavras diferentes, correspondendo a uma média de seis evocações por sujeito. Observamos, uma variação significativa das palavras evocadas, colocando em evidência a polissemia em relação ao objeto, conforme observado na Tabela 1.
No primeiro momento, foi possível acessar os mais diversos conteúdos semânticos. Em seguida, através de classificação baseada em sinônimos ou proximidade semântica das palavras, fizemos a primeira aproximação ao corpus, possibilitando a representação gráfica dos resultados por meio de tabelas de freqüências. Seguiu-se então a classificação em unidades de significação, e, por conseguinte, a categorização, dando visibilidade à estrutura interna existente no corpus em análise.
Na seqüência, foram evidenciados os elementos organizadores da representação através dos seguintes indicadores: a freqüência do item evocado, a média de freqüência da evocação e a importância do item para o sujeito. Assim, as palavras evocadas mais freqüentemente e mais prontamente pelos sujeitos, provavelmente, compõem os elementos centrais das representações desses sujeitos acerca do tema.
A Tabela 2 apresenta as ordens de classificação obtidas a partir da significação das palavras evocadas pelos sujeitos, compondo-se assim, as categorias: atenção; acolhimento; amor; assistência; conhecimento; dedicação; humanização; responsabilidade; trabalho e higiene.
Nessa perspectiva, a freqüência de evocação foi calculada a partir do somatório das freqüências com que a palavra foi evocada em cada posição, enquanto a ordem média de evocação foi obtida ponderando-se com o peso 1 a evocação feita em primeiro lugar, com peso 2 a segunda evocação e, assim, com tantas ponderações quantas foram associações solicitadas20. O somatório desses produtos dividido pelo somatório das freqüências da palavra citada nas diversas posições correspondeu à ordem de evocação da palavra. A média aritmética dos valores da ordem de evocação de cada palavra corresponde à ordem média de evocação. Procedendo à análise desses dois índices, de forma simultânea e combinada, foi-nos possível revelar os elementos que provavelmente participam do núcleo central da representação devido à sua saliência17 .
A partir desse procedimento, pudemos distribuir os resultados obtidos em um diagrama de quatro quadrantes, de forma que o eixo horizontal se refere à ordem média de evocação (com os valores menores para o lado esquerdo do eixo) e o eixo vertical à freqüência de evocação (com os valores maiores dispostos na parte superior do eixo). Assim, o quadrante superior esquerdo é composto pelas evocações de maior freqüência e prontamente expressas; o inferior direito, pelas evocações de menor freqüência e as mais tardiamente enunciadas. Os elementos que participam do núcleo central da representação situam-se no quadrante superior esquerdo (maior freqüência e pronta evocação); já no quadrante inferior direito, estão os de menor freqüência, que são denominados de "elementos periféricos". Nos quadrantes superior direito e inferior esquerdo, situam-se os elementos que se relacionam menos diretamente com o núcleo central20.
Entre os noventa profissionais que participaram deste estudo, 54 possuíam nível universitário e 36, nível médio. A maioria (87%) era do sexo feminino e a média de idade do grupo era de 44,5 anos. O tempo médio de atuação nos serviços públicos de saúde ficava em torno de dezessete anos de trabalho.
Os resultados demonstram que a freqüência média de evocação foi igual a 30 e a média aritmética das ordens médias de evocação foi igual a 2,05. De acordo com a análise combinada das indicações apontadas, delimitamos a área de localização dos elementos que, provavelmente, participam do núcleo central e do sistema periférico da representação do cuidado, o que pode ser observado no Diagrama 1.
Assim, acolhimento, atenção e amor situam-se no quadrante superior esquerdo, por apresentarem uma maior saliência e, dessa forma, compõem o núcleo central da representação social do cuidado. Os elementos dos demais quadrantes tendem, por conseguinte, a representar os elementos periféricos da representação, que se relacionam menos diretamente com o núcleo central, portanto não sendo capazes de interferir ou modificar, ainda, tal representação.
Durante a análise de conteúdo, algumas categorias emergiram de maneira mais enfática, reforçando as evocações que constituíram o núcleo central. O Diagrama 2 apresenta as categorias com as respectivas citações.
Na análise do Diagrama 1, percebemos que, no quadrante inferior esquerdo, estão localizadas as categorias responsabilidade e assistência; no quadrante superior direito a categoria humanização,mostrando uma certaproximidade do núcleo central;e no quadrante inferior direito estão situadas as categorias dedicação, higiene, conhecimento e trabalho, ou seja, os elementos periféricos da representação. A estratégia metodológica20 utilizada ajuda a perceber, para além da natureza essencialmente coletiva, a variação de sentido que cada sujeito atribui ao objeto representado. Essa conclusão ajuda a compreender que, embora a representação seja social, ela não elimina o sujeito. Partilhar uma verdade sobre determinado objeto não significa, portanto, anular-se diante do coletivo: Humanização [...], Escutar [...], Acolher as pessoas que necessitam não só da parte curativa, mas da escuta, pois são muito carentes e não precisam só da parte curativa. No momento que o profissional senta e escuta suas aflições e dificuldades do dia-a-dia, eles têm [...]Eu acho que eles já saem mais aliviados. (dentista)
Assim, podemos compreender a saliência dos elementos humanização,responsabilidade,assistência, e compreender também como os elementos periféricos que aparecem no quadrante inferior direito - apesar de alguns já representarem uma certa aproximação do sentido atribuído ao cuidado (ao incorporarem elementos como dedicação econhecimento) -, não conseguem ainda provocar mudanças de significados nos elementos do núcleo central.
Observando o Diagrama 2, percebemos que a justificativa relacionada ao acolhimento deixa claro que os sujeitos compreendem o significado da palavra "acolhimento", podendo-se dizer, portanto, que começa a haver uma ressignificação, ou seja, uma maior aproximação ao cuidado, visto que o acolhimento é parte fundamental deste, pressupondo uma escuta qualificada com vistas ao desenvolvimento de ações que intervenham nas dimensões relacionadas ao sofrimento e ao adoecimento.
Para a categoria amor, o sentido atribuído pela maioria dos sujeitos foi superficial, isto é, teve conotação banal, algo repetido pelo senso comum no intuito de convencer a quem está ouvindo. "Amor, por se tratar de um sentimento que engloba todos os outros" (auxiliar de enfermagem). "Amor, porque tudo que se realiza na vida deve ser com amor" (enfermeiro). "Amor, pois tudo que se faz com amor tem resultado positivo" (médico). Há uma interface entre discurso e as narrativas sobre o cuidado que circulam entre os profissionais do PSF e que são constitutivas das teorias de senso comum, no afã de dar sentido à prática profissional.
Outro aspecto que merece destaque diz respeito ao discurso referente à categoria atenção. "Atenção, porque se você está atento, você pode curar e prevenir as doenças, e dessa forma está cuidando" (médico). O sentido atribuído à palavra atenção está fortemente relacionado à prática assistencial, ou seja, possui uma maior associação com a prática curativa, sugerindo a aplicação de um conjunto de medidas terapêuticas, com predominância dos arsenais tecnológicos mais complexos – próprios das tecnologias duras e leve-duras.
Durante a análise de conteúdo do grupo focal, quando os sujeitos foram estimulados pela frase indutora, "O que vocês pensam quando eu falo a palavra 'cuidado' no PSF?", obtivemos as seguintes evocações: "[...] acolher e ser acolhido/ escutar/ responsabilidade/ compromisso/ zelo/ carinho/ amor" (discurso coletivo). "Responsabilidade [...] pela saúde das pessoas. No momento que você se responsabiliza pela saúde delas você está demonstrando que tem cuidado com elas, zelo, carinho e amor" (enfermeira). "[...] Ser cuidado, acolhido [...] eu diria que deve haver o cuidado do cuidador, já que somos peças importantes e estamos nesse dia-a-dia, nós temos que ter o cuidado conosco, já que essa população depende da nossa atividade" (médico).
Quando estimulados pela questão: "De que maneira vocês estão conseguindo cuidar dos pacientes?", emergiram as seguintes falas: "Apesar das dificuldades a gente está fazendo, está conseguindo [...] dentro das dificuldades [...] ainda conseguimos fazer algumas coisas. Só que o esforço e a iniciativa são mais dos profissionais, e não institucional" (dentista). "O primordial para o cuidado é ter respeito pelo outro, compromisso, amor pelo que faz, etc. etc. etc. [...]" (auxiliar de consultório dentário). "Mesmo que tenhamos todo o perfil, se não tiver uma estrutura mínima [...],e isso está difícil" (enfermeiro)."Mas a nossa preocupação é realmente qual tipo de cuidado, de assistência que a gente está dando ao usuário, qual a qualidade do atendimento?" (médico).
Nas respostas emitidas a respeito da questão "Qual a proposta de vocês para que se possa exercer efetivamente o cuidado no PSF?", obtivemos os seguintes depoimentos: "[...] nós passamos um ano e oito meses sem fazer atendimento odontológico na USF, por falta de caneta de alta rotação, amalgamador, fotopolimerizador e aparelho de ar condicionado para a sala"( dentista). "O dentista da minha unidade também está há seis meses só fazendo atividades educativas porque não tem material" (auxiliar de consultório dentário). "A Secretaria Municipal de Saúde teve muita sorte de encontrar profissionais comprometidos [...] porque se não [...] a coisa estava perdida. Ninguém ia estar nem aí [...] é porque a gente quer fazer [...] é comprometido" (auxiliar de enfermagem). "Então, com esse descaso institucional, como podemos exercer de forma satisfatória o cuidado no PSF?" (fala coletiva).
Podemos dizer que, sustentados por razões históricas e culturais, pela prática cotidiana instituída e, de forma velada, por valores e normas institucionais, os profissionais investigados absorvem parcialmente a proposta do PSF em relação ao cuidado; ou seja, as tecnologias leves (acolhimento, vínculo, responsabilização) não são ainda incorporadas de forma efetiva; há uma dissociação entre o dizer e o fazer. Faz-se necessária à associação dos conhecimentos técnicos, de novas configurações tecnológicas e novas micropolíticas no trabalho em saúde, inclusive no terreno ético. As tecnologias leves, quando apostam no diagnóstico sensível à subjetividade, nas relações de poder e afeto, nos códigos familiares subliminares, entre outros, induzem à ampliação da pauta técnica para a pauta ética, baseada em cidadania, solidariedade e humanização21.
Para se pensar um novo desenho assistencial em saúde centrado no usuário, é fundamental ressignificar-se o processo de trabalho. Essa ressignificação exige a mudança da finalidade desse processo, isto é, deve passar a ser a produção do cuidado, na perspectiva da autonomização do usuário, orientada pelo princípio da integralidade e requerendo, como diretrizes, o trabalho em equipe multiprofissional, a interdisciplinaridade, a intersetorialidade, a humanização da assistência, a participação social, a co-gestão dos serviços, através da criação de vínculos usuário/profissional/equipe de saúde
A questão da "acessibilidade" dos usuários às unidades de saúde do PSF foi outro aspecto destacado com bastante relevância pelos sujeitos, citado como um dos empecilhos para o desenvolvimento do processo do cuidado, visto que, da forma como se apresenta, a acessibilidade dificulta tanto a vida dos usuários quanto o desenvolvimento das ações de saúde (visitas domiciliares) por parte dos profissionais: "Eu trabalho numa unidade onde as pessoas têm que se deslocar mais de três quilômetros para chegar até a unidade ou até a área" (auxiliar de consultório dentário)."Nós marcamos uma consulta com uma paciente de nossa área, só que para chegar na nossa área tem que atravessar uma avenida muito movimentada por carros. Então ela faltou à consulta. E quando fomos à casa da paciente, ela disse que voltou para casa com medo de atravessar a avenida" (enfermeiro). "A territorialização ficou prejudicada. Nós também temos que nos deslocar a pé, a equipe toda, pois não tem ônibus e nós não vamos de carro. Áreas próximas não são adscritas à unidade, enquanto áreas bastante distantes pertencem à unidade, sendo o acesso da população dificultado pelas barreiras geográficas. Atrapalha muito!" (auxiliar de enfermagem).
Observamos que a falta de infra-estrutura nas unidades de saúde do PSF constitui-se num ponto de estrangulamento do Programa, visto que tem dificultado de forma significativa a efetivação das ações de saúde e, conseqüentemente, a produção do cuidado durante o processo de trabalho das equipes, e é muito ressaltada pelos sujeitos. "Fica muito difícil o desenvolvimento do cuidado, pois as unidades, em sua maioria, não dispõem de local apropriado para uma escuta com maior privacidade, e nem mesmo para uma escuta coletiva ou acolhimento adequado" (enfermeira). "Falta papel higiênico, café, açúcar, água, o mínimo de conforto, uma cadeira decente pra se sentar que não tem, e eu [...] não digo nem ar condicionado [...] mas o calor é grande [...]" (médico). "Água para beber, que é o mais simples, não tem" (auxiliar de consultório dentário)."Eu tenho um colega que de vez em quando vai ao supermercado Nordestão, porque lá no banheiro do supermercado tem papel higiênico, mas na unidade não tem" (médico). "Tudo isso dificulta o desenvolvimento do cuidado: a falta de estrutura, as próprias unidades não possuírem salas para reuniões [...]" (enfermeiro).
O discurso dos profissionais explicita as dificuldades existentes no cotidiano do trabalho nos serviços de saúde. Deixa claras as dificuldades encontradas para o exercício do cuidado de forma mais efetiva e a consolidação do processo de humanização.
Sobre a questão de infra-estrutura das unidades e das condições de trabalho no PSF, vale ressaltar que, embora já venham ocorrendo melhorias, ainda há muito que fazer para viabilizar-se uma resposta mais concreta para a comunidade e os profissionais de saúde. Apesar da aquisição de equipamentos e da abertura de alguns debates sobre o tema "PSF", não se tem conseguido, de forma efetiva, viabilizar as condições necessárias para as ações de saúde e a prática do cuidado junto a usuários e profissionais. Isso aponta para a necessidade de se colocar em pauta o tema "Cuidado no PSF" e suscitar o debate junto aos sujeitos envolvidos.

Considerações finais
Com base na teoria das representações sociais, pudemos constatar que os profissionais de saúde do PSF da cidade de Natal compartilham uma representação comum, cujo núcleo central é composto pelos campos semânticos acolhimento, atenção e amor. Concluímos que os sujeitos apresentam diferentes entendimentos sobre o processo do cuidado no PSF e que o conhecimento construído a respeito dessa questão está amparado numa visão aproximada do sentido do "cuidado". Entretanto, esse entendimento mantém elementos relacionados eminentemente a aspectos biomédicos e técnico-científicos.
Vale ressaltar que, nesse processo, apesar de manterem elementos que remetem a valores culturais e sociais estereotipados, alguns sujeitos começam a ressignificar esses elementos, incorporando significações novas, como acolhimento, humanização e responsabilidade,provavelmente em função das experiências individuais, história de vida, inserção cultural, visão de mundo e do acesso a capacitações (sem o abandono dos valores mais tradicionais). A partir do exposto, podemos concluir que o cuidado não foi ainda incorporado como um elemento fundamental ao processo de trabalho no PSF. Nos conceitos, valores, imagens, símbolos, enfim, no conteúdo da representação social do cuidado construído pelos sujeitos, este é entendido de forma fragmentada, na medida em que predominam apenas alguns elementos que compõem o cuidado em saúde, isto é, acolhimento e atenção, ficando de fora todos os outros elementos fundamentais à produção do cuidado em saúde.
O desvelamento dessa forma específica de absorção da novidade representada pelo cuidado por um lado deve servir de alerta para a necessidade de se definirem estratégias mais eficientes e eficazes, no plano local, que possibilitem aos profissionais do PSF ultrapassarem os limites que ainda os mantêm presos a saberes tradicionais e à racionalidade biomédica; por outro lado, serve para mostrar a força da naturalização do mundo, construída pelas representações sociais e, ao mesmo tempo, indicar os elementos sobre os quais se pode atuar para modificá-las.
Acreditamos que construir novos modelos de processo de trabalho em saúde em qualquer tipo de serviço, que possibilitem combinar a produção de atos cuidadores de maneira eficaz e eficiente com conquistas de resultados, cura, proteção e promoção, é tarefa urgente a ser realizada pelo conjunto dos gestores, trabalhadores e usuários dos estabelecimentos de saúde22.
 

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"Primum non nocere"

Olá pessoal!
Recentemente foi solicitado ao Prof.Marcos,estudioso do latim,que criasse uma frase que fosse o lema  da faculdade de medicina  da Unit,além de ser a frase do nosso futuro brasão.Pois então ele criou a frase que se baseia nos ensinamentos hipocráticos:"Primum non nocere",que significa: "Em primeiro lugar não fazer o mal".Então...O que acharam?Eu achei muito legal!Abraço a todos!
Cesinha.

Bioestatística - Aula de Informática 06/08/10

Hola Chicos!
postando aqui os videos da aula de bioestatística o/ (aula de informática 06/08/10)
fonte: http://www.bioestadistico.com/ (em espanhol)


Tipos de Investigação





Níveis de investigação





Desenhos em investigação





Escalas de Medição





Vai assistir, vai. boa sorte quem não souber espanhol(incluindo eu) :)
Fui. ~ Arthur Rangel

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Atividade para os alunos do Prof. Charles em Habilidades Médicas

O professor Charles enviou este email para a turma, resolvi colocar aqui para quem for aluno dele.
Beijos,
Lorena Coelho
 
"Boa noite pessoal.
 
     Para meus alunos. 
     Para discutir na próxima semana:
 
     1) Na próxima semana vamos utilizar as balanças não digitais. Vou pedir para colocar em nossa sala. Favor tentar ver como elas funcionam antes da discussão.
     2) Não esquecer de estudar a localização da crista iliaca.
     3) Não esquecer de estudar os itens já propostos em sala de habilidades.
     4) Estudar em anamnese: Doenças pré-existentes, medicamentos em uso, sintomas gerais de cabeça e pescoço.
     5) Estudar exame físico: prega cutânea, relação cintura quadril, perímetros braquial, cefálico e torácico.
 
Um grande abraço,
Prof. Charles
 
 

SEGUNDO texto do PIESF retirado do SCIELO


 SEGUNDO TEXTO DO PIESF
             





Interface (Botucatu) vol.13 no. 31 Botucatu Oct./Dec. 2009 
Trabalho em saúde e a implantação do acolhimento na atenção primária à saúde: afeto, empatia ou alteridade?
Health work and the implementation of user embracement in primary healthcare: affection, empathy or alterity?
Trabajo en salud y la implantación de la acogida en la atención primaria a la salud: ¿afecto, empatía o alteridad?
Alessandro da Silva ScholzeI; Carlos Francisco Duarte JuniorII; Yolanda Flores e SilvaIII
ICurso de Medicina, Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). Rua 3050, 300, apto. 101, Centro. Balneário Camboriú, SC, Brasil. 88.330-308. alessandroscholze@univali.br
IICurso de Medicina, UNIVALI IIIMestrado Profissional em Saúde da Família e Gestão do Trabalho, UNIVALI


RESUMO
Desenvolvemos uma reflexão teórica sobre o trabalho na Atenção Primária à Saúde (APS) na diretriz do acolhimento, buscando possibilidades de superar a alienação em seu processo produtivo, a partir de relatos de experiência da implantação do acolhimento em serviços de APS. Identificamos as seguintes perspectivas teóricas nas relações interpessoais nos serviços, com indicadores de avanços na humanização do trabalho em saúde e de uma aproximação com a subjetividade: afeto, empatia e alteridade. Ainda que todas sejam adequadas e mesmo complementares entre si, fazemos nossa opção pela alteridade como perspectiva teórica capaz de instrumentalizar o trabalhador da saúde para desenvolver o acolhimento, sem deixar de garantir sua própria humanização. Esta abre possibilidades de enfrentamento das situações do cotidiano dos serviços de saúde, oferecendo aos profissionais condições de construírem seu trabalho sem limitá-lo à perspectiva biomédica e preservando sua própria saúde.
Palavras-chave: Acolhimento. Serviços de saúde. Atenção primária à saúde. Pesquisa interdisciplinar.


ABSTRACT
We conducted a theoretical reflection on the work of primary healthcare professionals in the scope of user embracement, searching for possibilities to overcome alienation in their production process, based on experience reports regarding user embracement implementation in primary healthcare services. We identified the following theoretical perspectives which we consider useful in order to enhance humanization in the work in the health area and also to foster subjectivity in interpersonal relationships: affection, empathy and alterity. Although they are closely related to each other, we believe alterity is the theoretical perspective that is able to give the health worker conditions to develop user embracement while ensuring his/her own humanization. Alterity opens possibilities to cope with everyday situations in the healthcare services, providing health professionals with the conditions to work without restricting themselves to a biomedical point of view and, at the same time, preserving their own health.
Keywords: User embracement. Healthcare services. Primary healthcare. Interdisciplinary research.


RESUMEN
Desarrollamos una reflexión teórica sabre el trabajo en la Atención Primaria a la Salud (APS) en la directriz de la acogida, buscando posibilidades de superar la alienación en su proceso productivo a partir de relatos de experiencia de la implantación de la acogida en servicios de APS. Identificamos las siguientes perspectivas teóricas en las relaciones interpersonales en los servicios, con indicadores de avances en la humanización del trabajo en salud y de una aproximación con la subjetividad: afecto, empatía y alteridad. Aunque todas sean adecuadas y basta complementarias entre sí, hacemos nuestra opción par la alteridad como perspectiva teórica capaz de instrumentalizar al trabajador de la salud para desarrollar la acogida sin dejar de garantizar su propia humanización. De este modo se abren posibilidades de afrontar las situaciones cotidianas de los servicios de salud, ofreciendo a los profesionales condiciones de construir su trabajo sin limitarlo a la perspectiva biomédica y de preservar su propia salud.
Palabras clave: Acogimiento. Servicios de salud. Atención primaria de salud. Investigación interdisciplinaria.


Introdução
A Política Nacional de Humanização (PNH) da Atenção e Gestão no Sistema Único de Saúde, chamada Humaniza SUS, foi desenvolvida de modo a qualificar o SUS e estabelecer, na prática, suas diretrizes. Essa política foi uma resposta às evidências do despreparo dos profissionais da saúde para lidar com a dimensão subjetiva do cuidado, juntamente com a persistência de modelos de gestão centralizados e verticais, que desapropriam o trabalhador de seu processo de trabalho (Brasil, 2006a).
A PNH definiu como humanização "a valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores" (Brasil, 2006a, p.10). Esta deve ser implementada com base nos seguintes princípios: transversalidade, qualificando a comunicação no sistema; indissociabilidade entre atenção e gestão, garantindo a integralidade do cuidado ao identificá-lo com os processos de trabalho e produção de saúde; protagonismo, corresponsabilidade e autonomia dos sujeitos e coletivos. Este último relaciona-se diretamente com o entendimento do trabalho como forma de produção de sujeitos, assumindo que a autonomia destes nos processos de gestão e cuidado garante maior efetividade nas mudanças do sistema de saúde.
O acolhimento é uma das diretrizes da PNH e tem se tornado sua face mais visível, especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS), pelas consequências diretas que pode determinar no acesso dos usuários como uma mudança no processo de trabalho, a fim de atender todos aqueles que buscarem o serviço de saúde. Desse modo, o princípio da universalidade é estabelecido de forma qualitativa, não apenas pelo aumento no número de unidades ou profissionais na rede de saúde, mas pela inclusão de toda a equipe de saúde no processo de atenção, aproveitando a capacidade clínica de profissionais que apenas serviam de intermediários para a consulta médica. Esses profissionais devem criar espaços no serviço de saúde que permitam uma escuta qualificada, conduzindo à responsabilização pelo problema do usuário e dando-lhe uma resposta adequada (Brasil, 2006a; Silveira, 2004; Malta et al., 1998).
A PNH propõe o acolhimento como processo constitutivo das práticas de produção e promoção da saúde, preocupando-se em incluir a saúde do trabalhador em saúde como parte das metas do SUS e de seus parâmetros de avaliação. Porém, as propostas da PNH conduzem tanto a possibilidades de humanização do trabalho no SUS como a novas exigências, capazes de sobrecarregar ainda mais os profissionais de saúde, caso estes não estejam instrumentalizados para lidar com o aumento de demanda gerado na ampliação qualitativa da universalidade e pela qual devem se responsabilizar.
Nesse caso, ainda que bem intencionada, a proposta da humanização com base no acolhimento gera condições adicionais para o surgimento da Síndrome de burnout do trabalhador em saúde. Reconhecida como uma das principais doenças nos Estados Unidos e na Europa, o burnout é um risco ocupacional para pessoas envolvidas nos cuidados em saúde, iniciado com excessivos e prolongados estados de tensão no trabalho, atingindo mais intensamente os não especialistas, como as auxiliares de enfermagem. Suas manifestações incluem: exaustão emocional, perda de interesse em práticas profissionais inovadoras e sintomas físicos diversos, com consequente perda de qualidade no trabalho e distanciamento nas relações pessoais (Trigo; Teng, Hallak , 2007).
O sofrimento no trabalho pode ainda ser mantido pelo desenvolvimento de estratégias defensivas que garantem a normalidade aparente e insensibilizam contra o que faz sofrer, como as demandas lançadas ao trabalhador em saúde para construir um ambiente de humanização e acolhimento dentro de um sistema que nega a subjetividade do trabalhador e do usuário. Esse trabalhador protege sua saúde mental, de modo a tornar tolerável o sofrimento ético que experimenta ao infligir um sofrimento indevido ao outro, objetificando-o e a si mesmo num processo de produção de procedimentos, e não de saúde (Dejours, 1999).
Diante disso, construímos este artigo a partir de uma pesquisa de natureza bibliográfica/teórica sobre o trabalho dos profissionais de saúde na perspectiva do acolhimento na APS no Brasil, com base nas categorias afeto, empatia e alteridade, apontadas como possibilidades teóricas para superar a alienação em seu processo produtivo (Mayema, 2007; Brasil, 2006a, 2006b; Teixeira, 2005, 2004). Inspirando-nos em Minayo (2007), relacionamos tais possibilidades bibliográficas/teóricas com relatos de situações práticas de implantação do acolhimento na APS, coletados em artigos científicos identificados nas bases de dados da Bireme com a temática "acolhimento", especificando-se "serviços de saúde", de 1998 a 2008, e considerando a descrição das primeiras experiências até as mais atuais. O resultado dessa busca indicou 13 textos, dos quais apenas três descreviam experiências. Considerando o número de textos disponíveis para análise, escolhemos "acolhimento" e "APS" como nossos novos descritores de busca e selecionamos outros nove trabalhos. A análise e a interpretação do material disponível resultaram da leitura compreensiva dos textos selecionados, problematização das ideias aí contidas sobre implantação do acolhimento e humanização do trabalho, conduzindo-se um diálogo com as categorias previamente identificadas para elaborarmos uma síntese interpretativa.
Trabalho e cuidado na saúde
Segundo Zarifian (2002, p.10), "todo trabalho caracterizado profissionalmente pode ser definido nos seguintes termos: conduzir um devir, mobilizando a experiência passada e antecipando o porvir". A hegemonia do capitalismo industrial tornou-se viável pela instituição da autodisciplina na organização do tempo que passou a permear toda a atividade social, organizada e reforçada pela disciplina industrial. A existência de um tempo homogêneo, caracterizando o tempo do porvir, permitiu comparar e controlar trabalhos heterogêneos, relacionando-os com um padrão comum, ou seja, o tempo necessário para produzir uma unidade de mercadoria. E, num aspecto mais amplo, possibilitou organizar os acontecimentos, relações sociais e fazer previsões nesse tempo espacializado em torno de um referencial comum, rigorosamente homogêneo, que contabiliza a passagem de minutos, dias ou anos.
Dotado de tanta utilidade social, o tempo espacializado não tem sentido próprio nem valor ético, mas foi incorporado na organização taylorista do trabalho, definindo cada gesto e movimento do trabalhador, sempre repetidos da mesma forma no presente. Já, quando atualmente aplicada aos prazos para realização de certa tarefa, a pressão do tempo pode ser simplesmente transferida do gesto do trabalhador para a impaciência do cliente ou, alternativamente, ser negociada numa interação entre trabalhadores e clientes, determinada pela qualidade concreta do serviço, e não pela ditadura abstrata do tempo homogêneo. Assim, o trabalho volta-se para o tempo do devir, simultaneamente objetivo e subjetivo, integrando as memórias e as experiências do passado em um presente que apenas serve ao fluxo das transformações que conduzem às diferentes possibilidades do futuro (Zarifian, 2002).
Também na saúde, o trabalho coletivo costuma ser organizado de forma taylorista, fragmentando-se a atividade produtiva em diferentes parcelas executadas por trabalhadores especializados em cada uma das ações necessárias ao cumprimento da tarefa. Tal divisão técnica do trabalho em saúde é característica do sistema de produção capitalista, determinando a padronização das tarefas de forma hierarquizada e afastando o profissional da saúde do controle do processo de cuidado, com isso há perda da autonomia e alienação desse profissional. O foco do trabalho passa a ser a execução de procedimentos repetitivos, em um tempo espacializado que exclui o trabalhador do processo criativo e das decisões sobre o cuidar (Pires, 2006a, 2006b; Campos, 1998).
Essa característica excludente foi definida por Boff (1999) como um dos modos de ser-no-mundo: o trabalho, em oposição ao modo-de-ser cuidado. A partir desses modos possíveis, o ser humano desenvolve seus processos de construção da realidade. O trabalho surgiu como interação do homem com a natureza, evoluindo para uma relação progressivamente mais intervencionista em seu meio, formando culturas que modelaram a natureza e os próprios humanos. Isso foi possível somente adotando certo distanciamento da natureza, a fim de analisá-la e dominar seus processos. Assim, a lógica do ser-no-mundo trabalho é antropocêntrica, negando as conexões do humano com a natureza. Por extensão, essa lógica do trabalho aplicada na própria sociedade humana pode acabar por objetificar e subjugar também as pessoas, como fins para atingir objetivos de produção e consumo.
Já o modo-de-ser cuidado seria a essência do ser humano, que não se opõe necessariamente ao modo-de-ser trabalho, mas dele diferencia-se por manter uma relação de convivência sujeito-sujeito com a natureza e entre os seres humanos. Desse modo, a intervenção sobre um objeto é substituída pelo acolhimento e pelo respeito, com os quais o humano dirige-se aos elementos da natureza e da sociedade por seu valor intrínseco e não utilitário. O cuidado, na visão de Boff (1999), é sistêmico, existe na relação entre os elementos do mundo, bem como na relação entre os elementos do próprio ser humano. Exige-se, então, uma integralidade no cuidado com o humano que passa pelo ambiente no qual vive, a sociedade na qual convive com outros seres humanos, até suas próprias individualidades físicas, espirituais e mentais.
Por sua vez, Maturana (1997) definiu o humano a partir da linguagem que surgiu da intimidade na vida dos antepassados do homem que coordenavam suas ações ao compartilharem alimentos, participarem da criação dos filhos, exercerem sua sensualidade na vida cotidiana. Essas condutas consensuais coordenadas nos pequenos grupos eram, por sua vez, coordenadas pela linguagem, a qual tem uma base emocional; sem esta, a convivência não seria possível. O linguajar e a capacidade de se emocionar reúnem-se para constituir uma forma específica de diálogo ou conversação, definindo o modo de viver do grupo humano considerado.
A convivência nos grupos humanos se dá por interações recorrentes. Quando essas interações "recorrem" de forma espontânea, levando à coexistência dos elementos do grupo em aceitação mútua, identifica-se o amor como fenômeno biológico. O amor expressa uma congruência estrutural entre sistemas vivos que, no caso humano, pode acontecer nas diferentes formas possíveis de viver juntos, mais próximas ou mais casuais, desde que baseadas na aceitação mútua. A emoção do amor origina o fenômeno social. Assim, um sistema social humano existe quando seres humanos coordenam suas ações no viver em aceitação mútua, sem a qual o sistema não se define como social. Por outro lado, não são sistemas sociais os sistemas de trabalho, voltados para a realização de uma tarefa, o que exige o compromisso com a emoção que constitui esse espaço de relações. Da mesma forma, os sistemas hierárquicos, "que são [...] constituídos sob a emoção que configura as ações de autonegação e negação do outro na aceitação da submissão própria ou da do outro [...] não são sistemas sociais" (Maturana, 1997, p.177).
Nesse sentido, os serviços de saúde aproximam-se mais da definição de aparelhos do que daquela de redes, entendendo-se aparelhos como organizações de agentes sociais caracterizados por dirigirem suas ações a um público, ou seja, o conjunto de indivíduos com o qual mantém uma relação de exterioridade, destinando a ele sua produção, enquanto estabelece internamente sua estrutura e processos de regulação. Já as redes definem-se por não terem um público e, independentemente de quais formas assumam, todas estabelecem estruturas fracamente hierarquizadas e muito mais flexíveis em relação aos aparelhos, sendo constituídas por entidades relativamente autônomas, a partir de um princípio dinâmico de autorregulação. Os aparelhos na sociedade moderna frequentemente agem de forma a excluir o interesse dos usuários, assumindo um paradigma produtivista centrado não nas relações produtor-usuário, mas no produto, ou procedimento, em si mesmo (Godbout, 2004).
Assim, alguns recursos utilizados pelas pessoas doentes, nos seus itinerários em busca de cura e cuidado, encontram-se imersos em sistemas sociais como a família; enquanto outros, incluídos no sistema de saúde formal ou profissional, mobilizam sistemas de trabalho. No primeiro caso, partimos do pressuposto de que neste sistema existe aceitação mútua e, consequentemente, a responsabilização e o desvelo necessários ao cuidado devem estar presentes. Os sistemas de trabalho, entretanto, prescindem da aceitação mútua, expondo os doentes à possibilidade de serem subjugados pelo modo-de-ser trabalho, como meros objetos de procedimentos ou consumidores de health commodities (Scholze, Silva, 2005; Helman, 2003).
Diante desses intercâmbios possíveis, nas redes do indivíduo ao longo de seus itinerários de cura e cuidado, e da expectativa que os serviços de saúde contribuam para a cura e o cuidado, cabe o questionamento: de que forma os serviços de saúde, estabelecidos como sistemas de trabalho, podem estar aptos a produzirem cuidado de forma integral? Também cabe a nós perguntarmos o que é este 'cuidado integral', para não chegarmos a um conceito semelhante ao de 'saúde', vinculado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nas décadas de 1970 e 1980, que sofreu tantas críticas entre profissionais da área. Neste momento, considerando a alteridade dos seres humanos, podemos inferir que um 'cuidado integral' é tão amplo e tão distinto quanto as culturas humanas existentes, e que para cada ser humano existe um cuidado necessário segundo seus problemas de saúde, aceitação do cuidado e o 'olhar' cultural que esta pessoa lançará sobre o 'cuidador' e sobre as terapêuticas (ou 'atos em Saúde') que este indicará em seu itinerário de cura e cuidado.
Mehry (1998) considerou que o trabalho em saúde tem como produto os "atos em Saúde", cuja finalidade seria intervir nos problemas de saúde, pressupondo um impacto positivo sobre as necessidades em saúde dos usuários dos serviços. Porém, o foco de seu trabalho pode ser esse usuário ou a produção de procedimentos, sendo que, neste último caso, a produção de atos em Saúde esgota-se na produção do procedimento, independentemente de seu impacto sobre a saúde de uma pessoa ou população. O autor entendeu que os usuários se voltam para os serviços de saúde menos em busca de procedimentos do que esperando encontrar espaços que disponibilizem acolhimento, responsabilização e vínculo. Porém isso não limita o foco do trabalho em saúde apenas na produção dessas relações, sendo necessária também a competência para responder aos problemas de saúde, sejam ou não disfunções biológicas.
O autor reconheceu, ainda, uma dimensão cuidadora, envolvendo os núcleos de saber característicos de cada profissão da saúde, a ser explorada juntamente com os conhecimentos técnico-científicos para desenvolver o acolhimento e a responsabilização, buscando aumentar a resolutividade da atenção em saúde e autonomizar o usuário. Concomitantemente, a interpretação exclusivamente biomédica das doenças deveria ser ampliada para incluir as diferentes práticas de cura existentes na sociedade e as experiências dos pacientes que não se enquadram nos diagnósticos preestabelecidos do instrumental teórico biomédico vigente. A partir dessas mudanças no modelo de atenção à saúde, é possível vislumbrar uma assistência que se destine ao cuidado integral à saúde, de forma que o modo-de-ser trabalho esteja subordinado ao modo-de-ser cuidado (Tesser, Luz, 2002; Merhy, 1998). Para que seja possível ampliar o instrumental de ação dos profissionais da Saúde, as mudanças nos serviços deveriam incluir a discussão sistemática do modo-de-ser de trabalho versus modo-de-ser do cuidado, em diversas perspectivas, incluindo-se aí a inserção de estudos antropológicos, sociológicos, geográficos, históricos, éticos e de relações humanas, entre outras possibilidades. Importante enfatizar que estes conhecimentos são oferecidos em muitos cursos de graduação e pós-graduação, contudo a superficialidade dos mesmos, a entrega destes conteúdos a pessoas sem experiência na saúde e a ideia de que estas disciplinas apenas servem para confirmar as horas obrigatórias do Ministério da Educação comprometem em muito o interesse dos profissionais pelos conteúdos ministrados.
 Experiências no acolhimento
Nesse contexto teórico, o acolhimento constitui-se em um elemento da mudança no processo de trabalho em saúde, com potencial de ampliar as práticas de cuidado envolvidas nas ações dos profissionais de saúde, porém esse potencial pode ser restringido pelo contexto prático no qual o acolhimento será estabelecido. O contexto do trabalho em saúde hegemônico na atualidade é aquele do modo-de-ser trabalho, voltado para a produção de procedimentos e muito bem adaptado à estrutura dos serviços de saúde organizados como aparelhos.
As diferentes experiências na implantação do acolhimento já desenvolvidas estiveram voltadas para implementar uma escuta ampliada, capaz de identificar os motivos que levaram o usuário a buscar o serviço, identificando suas necessidades e dando encaminhamento para a solução de seus problemas. Em algumas propostas foram criadas equipes de acolhimento, compostas por diferentes profissionais, enquanto outras se centraram especialmente nos auxiliares de enfermagem, os quais recorreriam a outros membros da equipe de saúde quando necessário. Porém, eventualmente, estes auxiliares encontravam-se em unidades sem locais adequados para a escuta do paciente e sem o envolvimento do restante da equipe, não sendo eles mesmos acolhidos (Mayema, 2007; Campos, Carpintero, Bueno, 2001; Costeira, s/d).
As dificuldades iniciais na experiência com acolhimento costumavam envolver o temor diante das novas iniciativas, exacerbadas pela ênfase que o acolhimento dava a problemas já existentes, mas não percebidos, criando uma falsa noção da Unidade Básica de Saúde (UBS) como pronto-atendimento (Franco, Bueno, Merhy, 1999). Essa percepção foi corroborada quando os usuários relacionavam o acolhimento diretamente com a pontualidade dos médicos e a rapidez no atendimento da recepção, em unidades que preservavam um trabalho na forma médico-centrada, a partir da distribuição de fichas (Ramos, Lima, 2003). Esta mesma óptica foi mantida pelos próprios membros da ESF, que relacionavam a organização do processo de trabalho da equipe com a falta de acesso ao atendimento clínico, e percebiam a Estratégia Saúde da Família como dirigida aos excluídos. Considerando esta premissa, não viam necessidades de maiores investimentos, mas viam como correta (e, muitas vezes, como a assistência mais adequada) a atuação de auxiliares de enfermagem na recepção, ainda que orientada por opções limitadas de encaminhamento, utilizando a referência ao pronto-atendimento de acordo com a organização do trabalho, em lugar da necessidade do usuário. Com isto, o que verificamos foi a ampliação de um sistema de distribuição de senhas e preservação do não acesso à disputada agenda médica (Schimith, Lima, 2004).
Equipes com atividade docente-assistencial vivenciaram essa situação diante de populações diversas daquelas originalmente abrangidas, ao receberem moradores de rua, moradores de favela e profissionais do sexo, entre outros, para os quais as rotinas programáticas não se mostravam adequadas. Desse modo, estabeleceu-se um acolhimento não apenas de caráter pontual, mas, a partir da identificação de situações de vulnerabilidade, no qual a organização do processo de trabalho foi modificada para resgatar a cidadania dos usuários, na perspectiva da equidade e de uma discriminação positiva (Romano, 2008; Carneiro, Silveira, 2003).
Diferentes formas de organização do acolhimento em diferentes centros de saúde foram relatadas por Takemoto e Silva (2007), sendo que, em três das unidades estudadas, o auxiliar de enfermagem conduzia uma triagem qualificada, que levava a uma primeira consulta com o médico, favorecendo somente o atendimento a queixas agudas numa modalidade de pronto-atendimento. Assim, não houve ampliação da resolutividade dos outros profissionais, ao contrário de outra unidade pesquisada, em que o acolhimento foi entendido como postura, buscando dar resposta às necessidades do usuário, ainda que não fossem clínicas. Esse tipo de vínculo é capaz de gerar satisfação e segurança, sendo fruto de um atendimento baseado na escuta e no bom desempenho dos profissionais, influenciando inclusive o acesso geográfico, pois o atendimento com resolutividade promove a procura por determinadas unidades, mesmo implicando maior deslocamento do usuário (Tresse, 2008; Lima et al., 2007).
Porém, mesmo que a implantação do acolhimento conduza os profissionais à prática dessa diretriz operacional, o deslocamento de algumas decisões - antes centradas no médico, para outros profissionais, como técnicos e auxiliares de enfermagem - pode não ser bem compreendido pelos usuários. Os possíveis conflitos entre as propostas de descentrar o trabalho da figura do médico e a concepção de atendimento em saúde trazida pelos usuários podem dificultar os esforços de comunicação, especialmente pela desvalorização dos profissionais que conduzem o acolhimento, gerando sobrecarga nas equipes de saúde, caso estas não sejam também acolhidas (Oliveira, Tunin, Silva, 2008; Pinafo, Lima, Baduy, 2008; Souza et al., 2008).
Uma forma de responder às possíveis resistências à implantação do acolhimento ou a sua implantação em formatos que têm pouco impacto no processo de trabalho é entendê-lo concomitantemente como postura dos profissionais e como técnica, objetivando a ampliação e a qualificação do acesso dos usuários. Para isso, contribui também uma implantação participativa do processo, com colegiados locais e o apoio de representantes do nível central. Assim, possibilita-se um aumento quantitativo do rendimento dos profissionais envolvidos e faz-se com que estes percebam uma maior qualificação no seu trabalho e na produção do cuidado, qualificando o vínculo com a comunidade e fortalecendo as equipes por meio da educação permanente (Alves et al., 2008; Oliveira et al., 2008; Solla, 2005; Panizzi, Franco, 2004).
Possibilidades teóricas da humanização do trabalho no acolhimento
Verificamos que a maior potencialidade das experiências do Acolhimento na APS tem sido a redução da demanda reprimida na rede básica, geralmente estabelecendo equipes de acolhimento centradas nos auxiliares de enfermagem. Porém, o acolhimento também pode ser explorado pelo enfoque de uma tecnologia do encontro trabalhador/usuário que, se adequada, permite desencadear um processo de mudança nas práticas de saúde, direcionando-as a partir das tecnologias leves (Carvalho; Cunha , 2006; Teixeira, 2004; Mehry, 1998).
Nesse sentido, os estudos consultados utilizaram diferentes termos para abordar os aspectos subjetivos das relações profissional-usuário, sendo identificáveis alguns marcos teóricos a partir dos quais os profissionais poderiam desenvolver suas práticas de saúde, de modo a qualificar sua interação com os sujeitos e coletivos, considerando-os em suas singularidades. Assim, buscaremos definir três desses possíveis marcos teóricos - afeto, empatia e alteridade - e analisar suas relações com o processo de trabalho em saúde como "maneiras adequadas de receber os distintos modos como a população busca ajuda nos serviços de saúde, respeitando o momento existencial de cada um sem abrir mão de pôr limites necessários" (Andrade, Barreto, Bezerra, 2008, p.821).
O termo afeto deriva originalmente da literatura psicanalítica, na qual se tentava descrever o tipo de sentimento que acompanhava ideias ou representações mentais de objetos externos, enquanto o humor seria a soma dos afetos. Manley (1999) sugeriu que se abandonasse a distinção de humor como um estado emocional prevalente em longo prazo, enquanto o afeto seria mais flutuante, buscando-se descrever os componentes objetivo e subjetivo da expressão emocional separadamente, podendo estes inclusive serem discordantes. Normalmente, verificadas nas variações da expressão facial, tom de voz e gestos, as manifestações externamente direcionadas do afeto podem permitir classificá-lo como: alegre, triste, embotado, expansivo, lábil, inapropriado, variando também na intensidade com que a emoção é expressa (Cordioli, Zimmermann, Keller, 2004; Sadock, 1999).
Teixeira (2004) utilizou o termo afeto ao definir o acolhimento dialogado como uma técnica de conversa, conduzida por determinadas emoções e afetos, de modo que as redes de trabalho em saúde formam extensas redes de conversações que podem ser pensadas como redes de trabalho afetivo, dedicadas a criar e a manipular afetos. Esse afeto estaria limitado, porém, à situação apriorística de aceitação do outro como um legítimo outro, no mesmo sentido que Maturana (1997) utilizou o termo "amor", sendo que aquele autor identificou esse afeto como acolhimento.
A capacidade de identificar os afetos no outro, por meio de sutis pistas sociais, é denominada empatia, uma habilidade baseada na autoconsciência emocional, fundamental para a efetividade interpessoal e citada como parte do processo de acolhimento (Demeneck, 2008). É uma das cinco áreas básicas que relacionam as habilidades definidoras da Inteligência Emocional, permitindo manifestar reações emocionais apropriadas a partir da autoconsciência. A raiz da palavra latina emoção é motere: "mover", implicando, com o prefixo "e", a conotação de mover para longe, ou seja, uma tendência de ação está implícita em cada emoção (Goleman , 1999).
Emoção se refere a um sentimento e aos pensamentos, estados psicológicos e fisiológicos, e toda a gama de impulsos para agir ligados a esse sentimento. Algumas são consideradas universais: raiva, tristeza, medo, alegria, amor, surpresa, desgosto, vergonha (Goleman, 1999). Também a palavra empatia denomina um sentimento que nos permite considerar uma perspectiva diferente da nossa própria, fazendo com que olhemos o sofrimento alheio com o olhar de quem sofre, apreciando a situação como se estivéssemos no lugar da pessoa que a experimenta. Na sua ausência, existe desconsideração pela pessoa do outro, seus valores, crenças e desejos (Goldim, 2006). Isso nos remete à definição de Boff (1999) do modo-de-ser cuidado, inviável sem o sentimento de empatia, que também é um dos atributos essenciais na relação médico-paciente e qualquer outra relação profissional na saúde em que se pense o cuidado como uma responsabilidade ética e moral do outro em um momento de fragilidade emocional e física (Morinaga et al., 2002).
Por sua vez, alteridade é um conceito central da Antropologia, ciência que nasceu do estudo das populações distantes, demandando o desenvolvimento de ferramentas, como a observação participante, para conduzir suas investigações. Ao longo de suas diferentes vertentes, a Antropologia preservou suas noções de distanciamento, seja no sentido de aproximar o que é longínquo, seja no de assumir um distanciamento da realidade próxima que permita um "estranhamento" desta, de modo a ver, como culturais, elementos de nossa própria sociedade que, por sua presença cotidiana, parecem-nos naturais. O olhar antropológico é voltado para o outro, para a alteridade. Essa alteridade incorpora a noção de humanidade plural, negando a existência de um centro do mundo ou de um centro do saber, e aceitando a diversidade de culturas que carregam suas próprias complexidades e maturidade (Laplantine, 2000). A ideia é não apenas a observação de diferentes realidades culturais, mas também adotar o ponto de vista do outro, buscando experimentar a realidade cultural alheia, a partir da própria alteridade (Helman, 1996). Dessa forma, reconhecemos o outro não apenas como objeto, mas também como um sujeito relacional em sua singularidade (Brasil, 2006a).
O nível de incorporação da alteridade no trabalho em saúde, ou competência cultural do profissional, pode variar da aceitação incondicional ao puro escárnio, considerando-se que, se não exploradas e comunicadas, as diferenças culturais no encontro entre profissional e usuário podem inviabilizar o cuidado (Betancourt, 2004). Ainda que não seja uma panaceia, a competência cultural desenvolvida a partir de uma postura de alteridade é necessária para garantir a qualidade das práticas de saúde, evitando assumir o usuário como passivo e ignorante diante dos profissionais de saúde, que seriam responsáveis absolutos pelo cuidado, quando, na verdade, é o primeiro que detém o poder de escolha quanto a que orientações seguir ou não (Oliveira, 2002).
O acolhimento, portanto, não se limita a um espaço físico disponível ou a uma postura dos profissionais em seu trabalho na saúde, mas depende de uma organização multidisciplinar no serviço de saúde que exige pessoal disposto para ir além da reflexão e problematização dos processos de trabalho, com garantia de tempo disponível e boa remuneração, além de uma infraestrutura que permita a eficácia do atendimento clínico. Tais condições são possíveis em uma cultura institucional aberta e flexível, na qual o poder seja intensamente delegado a gestores e a equipes técnicas qualificadas (Serrano, Benito, Giordani-Serrano, 2007).
Neste momento, percebemos que o sistema oficial de saúde, representado pelo Ministério da Saúde, ao tratar da saúde do 'outro' usuário, esquece-se do 'outro' funcionário deste sistema. Demonstra, desta forma, que a sua 'vontade' de humanizar os serviços baseia-se em ações para se 'ver' em estatísticas de assistência e muito pouco para realmente atuar numa perspectiva humanizadora que inclui o cuidado a todos: usuários diretos do sistema e trabalhadores deste mesmo sistema. Nesse sentido, nos últimos anos, a Antropologia vem se deparando com um dilema em suas ações: a necessidade de intervenção do antropólogo, e não apenas a observação, descrição e interpretação do que descobre em suas pesquisas, sobretudo na área da saúde. O dilema maior está em como oferecer as ferramentas de ação para outras áreas do conhecimento agirem, sem que estas, ao utilizarem as mesmas, não produzam os problemas descritos anteriormente. Do que falamos exatamente? Quando fornecemos aos dirigentes dos serviços de saúde respostas a suas indagações sobre como assistir melhor ao usuário considerando sua cultura e alteridade, proporcionamos meios que incluem ações diferenciadas que exigem dos trabalhadores da saúde maior disponibilidade de tempo, maior envolvimento emocional, físico e espiritual com o usuário, sem que este receba em igual volume condições para atuar nessa perspectiva. Olhando desta forma, o que temos são serviços superficiais que continuarão a ignorar o ser humano, visto que ignorar o trabalhador que atua na rede de saúde é tão grave quanto ignorar o usuário.
Considerações finais
No curso de sua breve história, o SUS promoveu claros avanços, ainda que, em geral, estes avanços não tenham revertido em amplo reconhecimento e apoio para sua efetivação, dada sua condição de movimento contra-hegemônico. Em vez disso, encontramos, de forma recorrente, tentativas de se construírem pontos de apoio para novos avanços, alguns sólidos e bem-sucedidos, outros de aspecto artificial e ignorando a existência de conhecimentos prévios ricos em potencialidades, em prol de novas nomenclaturas que correm o risco de se tornarem apenas novas vestes para antigas práticas.
O acolhimento pode se tornar apenas outra denominação de pronto-atendimento, caso o trabalhador da saúde não seja também acolhido. Os profissionais envolvidos nessa empreitada precisam desenvolver conceitos claros em relação a seu trabalho, evitando a sobrecarga, assumindo a participação nas decisões organizacionais e definindo claramente seus papéis como cuidadores, com comunicação clara e sem superenvolvimento que ameace sua integridade pessoal.
Assim, esta reflexão foge às pretensões de firmar respostas, limitando-se a construir algumas possibilidades teóricas em torno da humanização e do acolhimento, nas quais obtivemos mais claramente alguns pontos de partida para novos questionamentos do que fórmulas exatas para sua implantação. No entanto, isso é coerente com a perspectiva de redes de conversação fluidas, constantemente co-construindo as práticas nas interações entre os sujeitos que buscam ou oferecem apoio em meio ao processo saúde-doença.
Identificamos os marcos teóricos: afeto, empatia e alteridade como maneiras adequadas de atuar no acolhimento na APS, facultando também, aos profissionais de saúde, seus próprios avanços na humanização do seu trabalho. Esses marcos teóricos abrem possibilidades de releitura dessas relações, permitindo abordar as práticas em saúde na óptica do modo-de-ser cuidado, e mesmo relativizar a estrutura de aparelhos dos serviços de saúde, entendendo sua emoção fundamental não como a aceitação mútua incondicional do amor, mas que a emoção do compromisso fundamenta esse sistema de trabalho, voltando-se para a produção de saúde, não para o consumo de serviços ou produtos do complexo médico-industrial.
Mas, ainda que adequados e mesmo complementares entre si, fazemos nossa opção pela alteridade, como marco teórico capaz de instrumentalizar o trabalhador da saúde para desenvolver o acolhimento, sem deixar de garantir sua própria humanização. Essa opção se deve à caracterização do afeto não como apenas positivo nas relações humanas, mas trazendo em seu bojo todas as possibilidades emocionais, desde a alegria até a tristeza, devendo sempre ser compreendido, não apenas expressado, mesmo porque as responsabilidades éticas do profissional da saúde impedem-no de se guiar apenas emocionalmente, tanto quanto de ignorar as emoções do outro e suas próprias nos encontros desenvolvidos nas práticas em saúde. A compreensão dos afetos alheios deve-se, então, à empatia do profissional, cujo desenvolvimento demanda autoconhecimento e a capacidade de identificar as manifestações verbais ou não verbais, explícitas ou contraditórias, do sofrimento de outrem. Ainda assim, essas manifestações de afeto não seriam inconfundíveis ou exclusivas, pois sempre acabam por serem moduladas culturalmente.
A alteridade abre, então, possibilidades de enfrentamento das situações do cotidiano dos serviços de saúde, acolhendo o outro como sujeito em seu sofrimento, em lugar de constituir-se em torno da doença como objeto. Ao mesmo tempo, o profissional tem condições de construir seu trabalho a partir da alteridade, evitando ser etnocêntrico na perspectiva biomédica e preservando sua saúde mental, de modo a responsabilizar-se por seus esforços em conjunto com o outro, sem sofrer por inevitáveis insucessos decorrentes daquilo que não domina, os quais podem sempre ser encarados como oportunidades de aprendizagem. Tais oportunidades são enriquecidas quando se assume o distanciamento proposto pela alteridade em relação à realidade dos serviços de saúde, estranhando-a de modo a produzir mudanças, e superando a naturalização das situações que promovem o sofrimento do trabalhador e sua alienação.
Colaboradores
Os autores Alessandro da Silva Scholze e Carlos Francisco Duarte Junior participaram da elaboração do projeto, revisão da literatura, redação e revisão do texto. A autora Yolanda Flores e Silva participou da redação e revisão do manuscrito.